CRÍTICOS DE CINEMA: QUEM SÃO ELES?

As ponderações de Franthiesco Ballerini, crítico de cinema e professor da “Oficina Crítica” da Academia Internacional de Cinema, sobre uma das mais controversas vertentes do jornalismo cultural

Por Franthiesco Ballerini Foto Arquivo Pessoal

Um cineasta passa uma média de dois a três anos planejando um longa-metragem. Gasta tempo e paciência tratando do roteiro – e no Brasil, a maioria precisa lutar pessoalmente para arrecadar dinheiro para a produção. São semanas ou meses inteiros de pé, acompanhando dezenas de profissionais durante as filmagens, refazendo cenas, juntando mais dinheiro etc. O filme rodado ainda pede uma mixagem, uma finalização e um trabalho de promoção. Após esta “via-crúcis”, alguns desses títulos entram em cartaz e sofrem críticas negativas, que sugerem ao público: “não perca tempo indo ao cinema assisti-lo!”

É uma situação que parece injusta. Mas a figura do crítico se tornou fundamental para o trabalho dos próprios artistas ao longo de mais de 100 anos de cinema. E afinal, de onde vêm esses profissionais? Como se formam? E o mais importante: o trabalho de um crítico resume-se a ver uma obra de arte e dar sua opinião sobre a mesma?

A VOZ DA BURGUESIA

O nascimento do texto crítico foi possível graças às transformações sociais do século XVII, quando a burguesia ganhou poder político e criou espaços para a afirmação discursiva de suas opiniões (jornais, revistas etc.). A crítica nasceu, assim, como forma de legitimação da condição burguesa contra o Estado absolutista. Mas seu exercício só ganhou força no século XVIII, com o desenvolvimento de salas de teatro, concertos e museus nas cidades europeias. Tornou-se um prolongamento das conversas desenvolvidas por aristocratas e intelectuais nas revistas impressas dos burgueses da época.

A literatura foi a “mãe” da crítica cultural impressa – mas textos críticos de música também podem ter sido antecessores pertinentes. Curiosamente, ao contrário do que ocorre hoje – quando a crítica cultural perde cada vez mais espaço em veículos impressos –, no século XVIII a crítica era quase a totalidade do que se via em jornais e revistas.

Quanto ao cinema, é incerto o momento exato do nascimento da crítica cinematográfica. Mas sabe-se que, desde o surgimento do próprio cinema, as produções começaram a ser comentadas em folhetins e livros. Enquanto, nos EUA, revistas como a “Photoplay “se consolidaram, já em 1910, como divulgadoras do star system de Hollywood, no Brasil, os textos de cinema surgiram como noticiários e publicidades de filmes, evoluindo para comentários e “críticas” apenas em 1917.

Diferentemente da crítica literária, que se consolidou ao longo de muitas décadas, a cinematográfica não teve esse tempo de maturação: foi se desenvolvendo quase concomitantemente com o cinema. Um exemplo disto é o surgimento do cinema falado, que desestruturou toda a crítica de cinema. Só a partir da década de 1940 a crítica se reorganizou em tendências científicas, graças, inclusive, à publicação de obras técnicas e teóricas sobre o cinema e à discussão de obras em cineclubes.

EFEITOS IMEDIATOS E A LONGO PRAZO

Mas, afinal, qual é a missão de um crítico? O filósofo alemão Immanuel Kant disse, certa vez, que a crítica “não tem que lidar com os objetos da razão, cuja multiplicidade é infinita, mas apenas com a razão em si e com problemas por ela sugeridos e apresentados”. Em uma palestra recente, em São Paulo, Jean-Michel Frodon, diretor da revista francesa Cahiers du Cinéma – considerada a publicação do gênero mais importante do mundo –, disse acreditar que o ofício não deve ser julgado pelo número de espectadores que leva ao cinema, atitude que constitui uma ‘derrota’ do pensamento crítico.

“Os efeitos imediatos que a crítica de cinema pode ter no espectador são menos importantes que seus desafios maiores no domínio da arte em geral. Muitos distribuidores e produtores que trabalham no cinema consideram o crítico uma espécie de ‘auxiliar de publicidade’ dos filmes – e os diretores os veem como uma ferramenta de auxílio para o consumo dos objetos de arte. A vida cotidiana dos críticos, concreta e impura, é ser um pouco disto – mas, também, um pouco de “outra coisa”. A crítica cinematográfica construiu a classe comercial e social dos filmes de Woody Allen para sempre. A crítica não tem praticamente efeito algum sobre a venda – mas tem efeito sobre o futuro do realizador, em sua entrada em festivais e na realização de outros projetos”, disse Frodon, que acrescentou: “um povo ou época sem crítica de arte é como algo ‘fora do mundo’; seria um caso extremo de carência de verbo, de falta de sensibilidade, de reflexão e de imaginação. Na crítica de arte fica expresso o que se ama, o que se pensa e o que se imagina em relação às obras. E não apenas isso: também os ideais daquele tempo e os que se projetam para o futuro”.

BOAS INTENÇÕES, DEDICAÇÃO LIMITADA

Mas não é fácil ser crítico de cinema em um país como o Brasil. Em seus estudos referentes à época em que existiu a revista Clima, Jean-Claude Bernardet lembra que o país passou anos sem uma formação apropriada, sem cursos de cinema e uma quantidade razoável de filmes nacionais nas telas. O crítico passou a ser um jornalista que comentava filmes estrangeiros e que precisava ter outras atividades para sobreviver – e por isso escrevia sua crítica rapidamente, “com boas intenções e até amor ao cinema, mas, certamente, com uma dedicação limitada”.

Isto, sem mencionar que sofre todo tipo de pressão de anunciantes e distribuidores. Muitos críticos dos anos 1940 e 1950, segundo o autor, foram afastados de suas funções por pressões de exibidores e distribuidores. Hoje a situação é menos radical, mas é comum vermos críticos – que, geralmente, também exercem a função de repórteres de cinema – perderem a oportunidade de fazer entrevistas com astros e diretores de Hollywood por terem dado “uma estrelinha” e diversos argumentos contrários a um blockbuster. Por isso Bernardet não deixa de ter razão ao dizer que não é fácil, para um crítico, desancar um filme que agrade ao público médio. Esse mesmo profissional “passará por esdrúxulo se valorizar a obra tida como ‘ruim’ ou ‘hermética’. O crítico não deve afastar-se do gosto médio; uma de suas atribuições, ao contrário, é a função de reforçar este gosto”.

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