ENTREVISTA PAULO VAINER

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Foto: (Divulgação/ curta-metragem Voz)

Por: Eduardo Torelli

Diretor e fotógrafo, Paulo Vainer captou o clima de antagonismo político que reina no país no curta-metragem Voz, produzido pela Paranoid

São tempos difíceis para o diálogo: em meio ao clima de polarização que reina no país, a discussão política se tornou inviável, dando lugar ao confronto e ao antagonismo. Por isso, em entrevista, Paulo Vainer, que é diretor e fotógrafo, explica que traduziu essa atmosfera em seu curta-metragem Voz, produzido pela Paranoid, que possui uma estética própria dos filmes de ficção científica apocalípticos.

A produção é protagonizada pela modelo e atriz Samira Carvalho e se destaca pela criatividade da realização. Vainer usa elementos da direção de arte e do figurino para sublinhar a separação entre as duas “tribos” que se enfrentam no curta (uma é representada pela cor preta e por um quadrado, e a outra, pela cor branca e por um círculo) e foi muito criterioso na escolha das locações e equipamentos utilizados na captação das cenas, que reforçam a proposta do projeto e ajudam a imergir o espectador em um cenário despótico e opressivo.

Considerado um talento “multimídia” (já que domina as técnicas e processos da fotografia e do cinema), Vainer conversou com a reportagem de Zoom Magazine sobre a produção do curta e sua trajetória profissional.

Entrevista Paulo Vainer:

O CURTA VOZ RETRATA UMA REALIDADE EM QUE OS DISCURSOS DE ÓDIO E A INTOLERÂNCIA ESTÃO FORA DE CONTROLE. TRATA-SE DE UMA METÁFORA SOBRE O BRASIL ATUAL OU SOBRE UMA CONJUNTURA POLÍTICA MAIS AMPLA, QUE ABRANGE O MUNDO COMO UM TODO?

É uma conjuntura mais ampla, mas também é inspirada no momento de polarização pelo qual o Brasil passou.

E O QUE PODE SER FEITO PARA AMENIZAR ESSE CLIMA DE INTOLERÂNCIA QUE PARECE SER fCONTAGIOSO?

Sempre tive vontade de realizar uma ficção cientifica. E como mostra o filme, é um ritual onde as pessoas se vestem e pintam os rostos para quase “sacrificarem” um membro de outra tribo. Enfim, a intenção não era realizar um filme politicamente engajado, e sim um delírio estético baseado na intolerância. Mas creio que o que aconteceu aqui foi contagioso.

O CURTA TEM UMA ATMOSFERA SOTURNA E DISTÓPICA. EM TERMOS DE FOTOGRAFIA, QUE RECURSOS VOCÊ USOU PARA OBTER AQUELA ESTÉTICA?

Tudo foi captado com luz natural em um dia nublado. Usamos lentes antigas, como as “tilt and shift”, que têm aqueles desfoques por área na imagem.

QUANDO DIRIGE, VOCÊ COSTUMA USAR RECURSOS COMO O STORYBOARD PARA PRÉ-PLANIFICAR AS CENAS? OU PREFERE IMPROVISAR E TOMAR SUAS DECISÕES NO SET?

Quando realizei Voz, usei um storyboard guia. Mas muita coisa foi feita de improviso. As imagens foram captadas de uma forma mais livre, em cima da coreografia elaborada para o filme.

AINDA SOBRE VOZ, O CURTA TEM UMA DIREÇÃO DE ARTE CURIOSA. ONDE VOCÊ CAPTOU AS CENAS?

Foi um processo de criação conjunto com Edu Hirama e Ana Wainer, que são os criativos da revista 55. Decidimos pintar uma locação no Brás toda de preto e grafitá-la, como se fosse um idioma do futuro.

VOCÊ TEM OUTROS PROJETOS COMO “VOZ” EM MENTE?

Quero usar o curta como um trampolim para uma série ou longa de ficção cientifica, mas com menos peso estético e mais apelo narrativo.

ESTAMOS EM UM MOMENTO DE TRANSIÇÃO POLÍTICA, O DEVERÁ TER UM IMPACTO NA ÁREA AUDIOVISUAL. QUAIS SÃO SUAS EXPECTATIVAS QUANTO A ISSO?

Momentos difíceis para os longas-metragens. Já as séries são produzidas com capital privado e não dependem do governo.

PARA FINALIZAR: VOCÊ É CONHECIDO COMO UM PROFISSIONAL MULTIMÍDIA. EM SUA OPINIÃO, ESSA VERSATILIDADE TENDE A SE TORNAR UM PRÉ-REQUISITO NA ÁREA DE COMUNICAÇÃO?

Acredito que sim. Hoje, em qualquer trabalho de fotografia still, sempre há a encomenda de um vídeo. Comecei no início dos anos 1990, movido por uma paixão pelo cinema.

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