Bom para provocar sensações de desorientação e tensão no espectador, o “ângulo inclinado” é muito utilizado não só no cinema, mas nos videogames

Texto: Ricardo Bruini
Imagens: Divulgação

O “dutch angle”, também conhecido como “ângulo holandês”, “ângulo alemão” ou “ângulo inclinado”, é um tipo de enquadramento no qual a câmera tem seu eixo alterado para que as linhas verticais e horizontais da imagem fiquem em ângulo em relação às bordas do quadro. Dessa forma, as linhas verticais não ficam perpendiculares às bordas laterais do enquadramento e as linhas horizontais não ficam perpendiculares à parte inferior (ou superior) do quadro.

O uso do ângulo holandês tem a finalidade de criar no espectador uma forte sensação de inquietação, tensão psicológica, desorientação, loucura, desconforto ou agitação quanto ao assunto filmado.

“Holandês” ou “Alemão”?
O ângulo inclinado foi amplamente utilizado para descrever sensações angustiantes ou desorientadoras no cinema expressionista alemão. Daí o nome “deutsch”, palavra alemã que, traduzida para o Português, significa exatamente “alemão”. Mas a expressão foi muitas vezes confundida com um termo em Inglês muito similar, “dutch”, que significa “holandês”.

Já que o uso da palavra inglesa “dutch” tornou-se mais frequente (afinal, muitos dos termos técnicos utilizados no cinema possuem grafia inglesa), o que antes era chamado de ângulo alemão (deutsch winkel) passou a ser chamado erroneamente de ângulo holandês (dutch angle), embora não tenha relação alguma com a Holanda. Atualmente ambas as palavras são aceitas, sendo o termo “dutch” o mais comum e difundido mundialmente.

O filme alemão O Gabinete do Dr. Caligari (1920) foi o primeiro a utilizar de forma proposital o ângulo inclinado para enfatizar visualmente situações de loucura. Na mesma década, mais precisamente em 1929, o cineasta russo Dziga Vertov utilizou, em seu documentário experimental, O Homem com a Câmera, o ângulo inclinado com a mesma finalidade de demonstrar desequilíbrio emocional na cena. A partir daí, a técnica se difundiu mundo afora e passou a ser largamente utilizada. Às vezes com êxito e em outras, nem tanto.

Como fazer?
Para inclinar a câmera no ângulo adequado utiliza-se uma cabeça de tripé especial denominada “Cabeça Dutch”, que permite que a câmera seja inclinada lateralmente e de forma precisa. Classicamente, o dutch é feito em um enquadramento estático, ou ainda, inserido em um movimento de câmera, como o travelling, por exemplo.

Também pode haver um movimento de câmera específico para o ângulo alemão, no qual a câmera vai girando durante a tomada até atingir a inclinação desejada. Nesse caso, é comum dar-se o nome de “movimento dutch”. Normalmente, quando o movimento de câmera inclui um movimento dutch, utiliza-se uma cabeça de controle-remoto que permite o giro preciso da câmera no eixo lateral.

Ou seja: além dos movimentos de tilt e pan, esse modelo de cabeça eletrônica também oferece o movimento de dutch. Essa cabeça de controle-remoto pode ser utilizada na ponta de uma grua para se amplificar ainda mais a sensação angustiante do movimento e efetuar, conjuntamente, diversos movimentos de câmera.

É comum uma tomada com ângulo inclinado ser montada na edição do filme de forma a ser inserida antes ou depois de outra tomada também com ângulo inclinado, mas oposta a esta (uma inclinada para esquerda e a outra para a direita). Assim, pode-se criar, além de um desequilíbrio, uma disputa emocional entre dois personagens ambíguos (cada qual com o seu “próprio ângulo”).

A decisão de quanto inclinar a câmera é bastante pessoal, variando entre os diretores de fotografia. Mas, geralmente, os ângulos ficam entre 10 e 35 graus. Menos que isso pode soar apenas um erro técnico de nível da câmera, mais do que isso pode ser exagerado (embora, em casos extremos, possa ser utilizado um ângulo de até 45 graus). Quanto maior o ângulo, maior a eficiência e a sensação de desorientação causada no espectador.

Além do ângulo da câmera, é bastante comum utilizar esse recurso em conjunto com uma iluminação mais contrastada ou até mesmo em penumbra. Trilha sonora contundente e ambientes lúgubres também ajudam a maximizar a pretendida sensação de “angústia”.

O cenário atual
Hoje, o dutch angle é muito utilizado, também, em jogos de videogame – não se engane pensando que este é um setor secundário, pois a indústria de games eletrônicos movimenta mais dinheiro que a do cinema! Principalmente nos clipes que antecedem as partidas. Também é usado na ação em primeira pessoa, reagindo aos obstáculos transpostos pelo gamer.

Já no cinema atual, o uso mais recorrente tem sido associado a câmeras mais soltas, operadas no ombro, balançadas, trepidantes e, algumas vezes, em conjunto com o antiquado zoom. Mesmo imagens feitas completamente em computação gráfica têm utilizado bastante o ângulo inclinado, muitas vezes, até em demasia.

Na temporada 2015 de Malhação (da TV Globo), por exemplo, o dutch angle parece ser utilizado por decreto, em quase todas as cenas e sem o menor pudor ou justificativa, sempre no ombro e em ângulo exagerados. Preste atenção nas grandes produções do cinema atual e perceba o quanto, principalmente em filmes de ação e de suspense, o recurso de se inclinar a câmera com a intenção de se gerar algum tipo de desconforto é utilizado. Garanto que você se surpreenderá com a enorme quantidade de takes desse tipo.

A exemplo de qualquer recurso de linguagem cinematográfica, o dutch angle deve ser utilizado, buscando-se formas criativas e inovadoras de integrá-lo às novas obras audiovisuais. Mas, sempre com parcimônia e sem aderir a modismos temporários.

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