CINEMA – COMO SOBREVIVER À CRISE?

É indiscutível que o país passa por uma fase “brava”. Mas a combinação de know-how, ousadia e eficiência pode ser uma estratégia para driblar a crise

Texto: Tristan Aronovich
Imagens: Divulgação

Sim: o Brasil enfrenta grandes problemas. Quem acompanha um pouquinho os noticiários da TV, ou as mídias sociais, certamente perceberá, em menos de cinco minutos, que a coisa anda mal em vários aspectos: os cenários político, econômico, social e cultural atravessam uma crise danada! Mas, talvez por isso mesmo, o povo brasileiro continue a produzir movimentos pioneiros e inéditos, fruto do trabalho dos que enxergam, nas crises, a motivação necessária para batalhar incansavelmente.

Certa vez, na Califórnia, há cerca de cinco anos, um colega norte-americano me perguntou: “Tristan, por que os brasileiros são tão bons em artes marciais?” (ele se referia ao famoso campeonato UFC, no qual os brasileiros despontam entre os melhores, regular e consistentemente, desde os primórdios do evento). Porém, para minha surpresa, antes que eu respondesse, outro amigo meu, um cineasta californiano que participava da conversa, retrucou de bate-pronto: “porque os brasileiros são sobreviventes. Eles não têm a vida fácil que a maioria dos americanos tem. Sobrevivem à miséria, à violência nas ruas, à corrupção… São sobreviventes e guerreiros por natureza. E você não pode derrotar facilmente um sobrevivente.”

Aquele argumento me marcou tanto que, mesmo hoje, cinco anos após a conversa, ainda guardo aquelas palavras comigo, percebendo o que elas têm de verdade: realmente, os que não cedem à crise, à violência, à corrupção e por aí afora são sobreviventes e guerreiros. Os que conseguem triunfar e sobreviver em um país que, muitas vezes, parece fazer de tudo para derrubar seus próprios cidadãos parecem desenvolver um DNA diferenciado.

Cinematograficamente falando…

Com o cinema, não é diferente: viver (ou “sobreviver”?) de cinema no Brasil é uma tarefa heroica. O dinheiro é escasso, os equipamentos e a tecnologia são altamente taxados, as distribuidoras, salas de cinema e canais de TV não priorizam nossas produções (e quando projetos nacionais conseguem o nobre feito de entrar em cartaz, muitas vezes, o próprio público não colabora e não prestigia!)… E, finalmente, a crítica especializada (que poderia ser uma aliada na formação de público) frequentemente age como a “inimiga número um” dos realizadores locais (tradição triste e de longa data, que vem desde O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, único filme brasileiro na história a conquistar o grande prêmio de Cannes, venerado no mundo todo, e que, no entanto, foi alvo de um ataque impiedoso por parte de nossos críticos, o que jogou Anselmo Duarte em uma depressão profunda).

Mas há luz no fim do túnel! Sim – muita luz! Assim como os campeões do UFC, o cinema brasileiro possui uma elite de campeões que batalha incansavelmente, desbravando fronteiras e provando que é possível, sim, fazer cinema e viver dignamente dessa arte no Brasil. Há quase uma década, o time do Latin American Film Institute (www.lafilm.com.br), parceiro da Zoom Magazine e com sede fixa em São Paulo, vem provando que o cinema independente é viável, lucrativo e prático.

Para que o leitor tenha uma ideia: desde 2009, o LAFilm (sigla adotada pelo Latin American Film Institute) realizou seis filmes de longa-metragem (o que resulta em uma média praticamente sem precedentes no Brasil, de um longa por ano!), além de centenas de curtas e videoclipes (incluindo a realização de dois DVDs completos do cantor Nasi – ex-IRA! –, com direito a indicação ao Grammy latino). Desses seis projetos de longa-metragem, metade já alcançou lançamento e distribuição em grandes plataformas (salas de cinema em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, além dos canais Fox, Sony, AXN, Prime Box Brasil, Sony Spin, FX, Turner e outros) e a outra metade está em negociação.

Qualidade e inovação

Evidentemente, o segredo para alcançar esses resultados é complexo. O primeiro passo, sem dúvidas, é contar com um time de profissionais altamente capacitados e qualificados. Absolutamente todos os profissionais da equipe LAFilm foram cuidadosamente treinados por mim, por Amanda Maya e por Luciana Stipp (ambas diretoras da empresa e profissionais reconhecidas internacionalmente) através dos cursos ministrados no LAFilm (sempre ficamos de olho nos alunos que mais se destacam para a possibilidade de contratá-los ao final dos estudos).

Após a contratação, é fundamental submeter o novo profissional à experiência de campo. Portanto, geralmente, “jogamos” os novos contratados em diversos projetos (desde documentários, videoclipes e vídeos institucionais até peças de teatro e filmes de longa-metragem). Somando capacitação à experiência, conseguimos garantir um time de primeira!

Outra etapa importante é “pensar fora da caixa”: ousar, arriscar e planejar ações que, para muitos, podem soar completamente vazias de sentido. Com isso, o LAFilm posiciona-se sempre um passo à frente do mercado e abre precedentes para todo a industria brasileira de cinema –

por exemplo: mesmo com muitos afirmando que seria uma empreitada impossível em meio à crise econômica mundial, o LAFilm decidiu organizar e investir em um festival internacional de grande porte e trazer ao Brasil grandes produtores e realizadores para palestras, seminários e workshops voltados ao cinema e à interpretação. Hoje, quatro anos após a primeira edição, é possível perceber iniciativas parecidas ocorrendo em todo o país. Temos muito orgulho e alegria de saber que contribuímos para isso, mostrando que era possível realizar algo assim.

Abaixo a burocracia

Outro case interessante diz respeito ao modo de produção: infelizmente, no Brasil, existe a terrível máxima de que cinema não é feito no set de gravação, mas por meio de tabelas de Excel, por conta de toda a burocracia envolvida. Cineastas (e empresas produtoras) passam literalmente meses ou anos preenchendo papelada, tabelas e formulários para, eventualmente, produzirem seus projetos. Indo contra tudo e todos, o LAFilm deu um “basta” às amarras burocráticas, reduzindo a papelada ao mínimo e mostrando que lugar de cineasta é no set! Este foi, sem dúvida, um desafio colossal, já que todo brasileiro sabe que nossa cultura está intrinsecamente atrelada a processos burocráticos, leis de incentivo e editais que exigem produções intermináveis de documentos, planilhas e formulários.

Optar por caminhos alternativos e desbravar formas de fazer cinema com qualidade profissional e potencial de mercado sem depender dos mecanismos tradicionais dá um frio na barriga de qualquer produtor. Mas acreditamos em nosso propósito e a prova disso é que conseguimos manter a média de um longa por ano (sem contar os demais projetos paralelos)! Ainda mais recompensador é perceber que, literalmente, dezenas de produtoras nasceram dos cursos do LAFilm (e um número cada vez maior de filmes de longa-metragem tem sido realizado nos mesmos moldes, a cada ano). É a “sementinha” plantada dando frutos!

Finalmente, além de uma equipe de primeira e de estratégias ousadas, deve-se ser rigoroso com a qualidade de acabamento dos projetos realizados (sejam esses projetos filmes, peças de teatro ou cursos de cinema e atuação) – o que significa uma quantidade inimaginável de trabalho e dedicação. Embora tenhamos desenvolvido a capacidade de produzir muito, o foco é sempre fazê-lo com qualidade. O rigor e o zelo pela qualidade nos rendeu parcerias e chancelas internacionais incríveis com algumas das maiores universidades e escolas da atualidade (como a New York Film Academy e a Savannah College of Art and Design, entre outras). Com isso, conseguimos reforçar a presença da criação artística brasileira no mercado internacional.

“Tríade Sagrada”

Esta tem sido nossa “Tríade Sagrada” para perseverar e crescer em tempos de crise: profissionais altamente qualificados, estratégias ousadas e inovadoras e dedicação extrema para priorizar a qualidade. Em tempo: isto não significa que haja uma fórmula mágica para combater a crise (lembrem-se que o LAFilm vem aplicando e desenvolvendo essa “tríade” há quase uma década!), mas significa, isso sim, que há uma luz forte no fim do túnel. E que essa jornada pode ser recompensadora, desde que você esteja disposto a desbravar esses três caminhos delineados!

Nosso saldo? Além dos projetos lançados e comercializados e das parcerias internacionais já citadas, colecionamos, com honra e orgulho, prêmios no mundo todo (incluindo “Excelência em Cinema”, no Festival Internacional do Canadá, “Escolha do Curador”, na Universidade de Harvard, e “Prêmio Humanitário”, no Festival Internacional de Sedona). E acompanhamos com alegria as carreiras brilhantes de quase três mil alunos que já passaram por nós e que, hoje, conquistam posições nas maiores produtoras e emissoras de TV brasileiras, além de prêmios em festivais como Cannes (França) e Tyrant de Mobile (Espanha).

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