ROTEIRISTAS EM FORMAÇÃO: EXERCÍCIOS PRÁTICOS – PARTE 1!

É hora de começar a exercitar tudo aquilo que você aprendeu sobre roteiro durante a faculdade de cinema, além de aprimorar o que você já sabe

Texto: Tristan Aronovich
Imagens: Divulgação

Há, no mercado, uma grande variedade de livros e artigos publicados “sobre” cinema. Eles analisam, criticam e até explicam os mais diversos aspectos da realização cinematográfica em todas as suas áreas (do roteiro à edição, passando por atuação, direção etc.). Resta, porém, uma lacuna: quase não há livros práticos que proponham atividades ou exercícios didáticos em ordem cronológica de complexidade e que visem treinar e preparar o profissional/artista do cinema para seu ofício e carreira futura. Que exercícios ou atividades um estudante poderia praticar para desenvolver suas capacidades como produtor? Ou, ainda: como diretor, roteirista, cinematógrafo, ator etc.?

Estudantes de música, por exemplo, podem se beneficiar de uma quantidade enorme de livros ou métodos que apresentam sequências lógicas de exercícios práticos progressivamente mais complexos e desafiadores com um único objetivo: aprimorar a técnica no instrumento. Já estudantes de cinema não gozam deste privilégio – e é justamente para preencher esta lacuna que me propus a escrever esta sequência didática de exercícios, de modo prático e progressivo. Desde os meus tempos de faculdade, em Los Angeles (no California Institute of the Arts), até hoje, realizei diversos filmes de longa-metragem, dezenas de curtas, videoclipes, documentários e institucionais, além de lecionar em várias faculdades e escolas no Brasil e nos EUA.

Procurei extrair da experiência nos sets de gravação (e da convivência com milhares de alunos) todas as atividades, práticas, jogos e exercícios que julguei mais proveitosos e eficazes na formação e desenvolvimento do artista. Espero, portanto, que esta nova etapa de artigos, com propostas de exercícios e atividades, seja um guia útil tanto para estudantes em etapa de formação como para os professores de cinema, que podem utilizá-lo como complemento prático aos seus materiais didáticos e acadêmicos. Como ponto de partida, começaremos com exercícios práticos para desenvolvimento de roteiros cinematográficos. Na sequência, abordaremos outros assuntos, como cinematografia, produção, edição etc.

Exercícios para desenvolver a percepção narrativa e dramática dos roteiristas

EXERCÍCIO 1:

Protagonistas, objetivos, conflitos e resolução

Reveja (ou procure lembrar em detalhes) alguns de seus filmes prediletos. No entanto – agora, como um roteirista –, você deverá aprender a analisar seus filmes favoritos sob uma nova perspectiva. Então, peço que, ao revê-los, procure perceber meticulosamente os seguintes aspectos (essenciais a uma história bem desenvolvida):

  • Quais e quantos são os protagonistas (personagens centrais)?
  • O que exatamente os protagonistas “querem”? Todas as personagens devem ter “objetivos” claros na cabeça do autor (algo que precisem realizar, conquistar ou buscar, por exemplo). É possível que uma personagem possua mais do que um objetivo. Nesse caso, procure descobrir quais são os objetivos mais importantes e quais são os secundários.
  • Quais são os “conflitos” enfrentados por cada personagem? Perceba absolutamente todos os obstáculos que se colocam entre a personagem e a realização de seu objetivo.
  • Perceba a “resolução”: como (e se) os conflitos são (ou não) resolvidos no filme de modo satisfatório.

Dica: Crie um “diário” de estudos para que você possa organizar todos esses dados. Acredite: este diário será o seu maior aliado quando você for compor seus próprios roteiros!

EXERCÍCIO 2:

Os “três atos”

Perceba que, de modo geral, as histórias possuem três grandes etapas: começo, meio e fim. Batizamos essas etapas de “Três Atos”, e a divisão deriva do que chamamos “Estrutura Clássica Aristotélica”. Tradicionalmente, no primeiro ato (ou no “começo” da história), devemos apresentar à audiência os protagonistas, seus objetivos e os principais obstáculos que deverão enfrentar. O segundo ato (ou o “meio” da história) é a etapa de desenvolvimento, durante a qual os protagonistas fazem o possível para vencer os obstáculos, atingirem o “clímax” da narrativa e alcançarem seus objetivos. Por fim, o terceiro ato (ou o “fim” da história) apresenta a resolução. Reveja (ou procure lembrar em detalhes) alguns de seus filmes prediletos. Ao fazê-lo, repare com atenção nos seguintes aspectos:

  • Em que momentos acontecem as transições entre o primeiro, segundo e terceiro atos?
  • Quanto tempo cada ato demora (procure cronometrar o tempo que você leva, como audiência, para conhecer todos os protagonistas e entender o que querem, bem como seus obstáculos. Em seguida, cronometre o segundo ato, ou seja, o tempo em que as personagens procuram vencer seus obstáculos até atingirem um clímax. Finalmente, procure perceber o tempo dedicado à resolução da história).
  • Com os tempos marcados e cronometrados, verifique a porcentagem total que cada ato absorveu do filme todo, estabelecendo uma “proporção” entre eles. Faça isso com vários filmes e procure constatar diferenças e semelhanças. Você se surpreenderá com as coincidências estruturais entre seus filmes prediletos!

EXERCÍCIO 3:

Proporções dramáticas dos três atos

Some, agora, os dois exercícios anteriores para uma análise bem refinada: reveja seus filmes favoritos e atente, de modo cronometrado, em que momentos de cada ato os elementos essenciais são apresentados (ilustrando: quando, no primeiro ato, compreendemos com clareza qual o objetivo do protagonista? Da mesma forma, quando o roteiro nos apresenta o principal obstáculo/conflito etc.?). Insira em seu diário os dados e tabelas e analise detalhadamente vários filmes. Novamente, você deverá se surpreender com a quantidade de semelhanças estruturais.

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